Como não recordar, cheios de gratidão ao Espírito, a abundância das formas históricas de vida consagrada, por Ele suscitadas e continuamente mantidas no tecido eclesial? Assemelham-se a uma planta com muitos ramos, que assenta as suas raízes no Evangelho e produz frutos abundantes em cada estação da Igreja. Que riqueza extraordinária!
Vida monástica no Oriente e no Ocidente
Desde os primeiros séculos da Igreja, houve homens e mulheres que se sentiram chamados a imitar a condição de servo abraçada pelo Verbo encarnado, e puseram-se a segui-Lo vivendo de um modo específico e radical, na profissão monástica, as exigências derivadas da participação batismal no mistério pascal da sua morte e ressurreição. Deste modo, fazendo-se portadores da Cruz, comprometeram-se a tornar-se portadores do Espírito, homens e mulheres autenticamente espirituais, capazes de em segredo fecundar a história, com o louvor e a intercessão contínua, com os conselhos ascéticos e as obras de caridade.
A Ordem das virgens, os eremitas, as viúvas
Um motivo de alegria e esperança é ver que hoje volta a florescer a antiga Ordem das virgens, cuja presença nas comunidades cristãs é testemunhada desde os tempos apostólicos. Consagradas pelo Bispo diocesano, elas contraem um vínculo particular com a Igreja, a cujo serviço se dedicam, mesmo permanecendo no mundo. Sozinhas ou associadas, constituem uma imagem escatológica especial da Esposa celeste e da vida futura, quando, finalmente, a Igreja viverá em plenitude o seu amor por Cristo Esposo.
Institutos inteiramente dedicados à contemplação
Os Institutos orientados completamente à contemplação, formados por mulheres ou por homens, constituem um motivo de glória e uma fonte de graças celestes para a Igreja. Com a sua vida e missão, as pessoas que deles fazem parte imitam Cristo em oração no cimo do monte, testemunham o domínio de Deus sobre a história, antecipam a glória futura.
Na solidão e no silêncio, mediante a escuta da Palavra de Deus, a realização do culto divino, a ascese pessoal, a oração, a mortificação e a comunhão do amor fraterno, orientam toda a sua vida e atividade para a contemplação de Deus. Oferecem assim à comunidade eclesial um testemunho singular do amor da Igreja pelo seu Senhor, e contribuem, com uma misteriosa fecundidade apostólica, para o crescimento do Povo de Deus.
A vida religiosa apostólica
No Ocidente, floresceram ao longo dos séculos muitas outras expressões de vida religiosa, nas quais inúmeras pessoas, renunciando ao mundo, se consagraram a Deus, através da profissão pública dos conselhos evangélicos segundo um carisma específico e numa forma estável de vida comum, para um serviço apostólico pluriforme ao Povo de Deus. Temos, assim, as diversas famílias de Cônegos regulares, as Ordens mendicantes, os Clérigos regulares, e as Congregações religiosas masculinas e femininas, em geral, dedicadas à atividade apostólica e missionária e às múltiplas obras que a caridade cristã suscitou.
Os Institutos seculares
O Espírito Santo, artífice admirável da diversidade de carismas, suscitou no nosso tempo novas expressões de vida consagrada, como que desejando corresponder, segundo um desígnio providencial, às novas necessidades que a Igreja encontra hoje no cumprimento da sua missão no mundo.
Vêm ao pensamento, antes de mais, os Institutos seculares, cujos membros pretendem viver a consagração a Deus no mundo, através da profissão dos conselhos evangélicos no contexto das estruturas temporais, para serem assim fermento de sabedoria e testemunhas da graça no âmbito da vida cultural, econômica e política. Através da síntese de secularidade e consagração, que os caracteriza, eles querem infundir na sociedade as energias novas do Reino de Cristo, procurando transfigurar o mundo a partir de dentro com a força das bem-aventuranças.
As Sociedades de Vida Apostólica
Merecem, depois, uma especial menção as Sociedades de Vida Apostólica ou de vida comum, masculinas e femininas, que perseguem, com seu estilo próprio, um específico fim apostólico e missionário. Em muitas delas, assumem-se expressamente os conselhos evangélicos, com vínculos sagrados reconhecidos oficialmente pela Igreja. Mesmo neste caso, todavia, a peculiaridade da sua consagração distingue-as dos Institutos religiosos e dos Institutos seculares. Há que salvaguardar e promover a especificidade desta forma de vida, que, ao longo dos últimos séculos, produziu tantos frutos de santidade e de apostolado, especialmente no campo da caridade e na difusão missionária do Evangelho.
Novas expressões de vida consagrada
A perene juventude da Igreja continua a manifestar-se também hoje: nos últimos decênios, depois do Concílio Ecumênico Vaticano II, apareceram formas novas ou renovadas de vida consagrada . Em muitos casos, trata-se de Institutos semelhantes aos que já existem, mas nascidos de novos estímulos espirituais e apostólicos. A sua vitalidade deve ser ponderada pela autoridade da Igreja, a quem compete proceder aos devidos exames, quer para comprovar a autenticidade da sua finalidade inspiradora, quer para evitar a excessiva multiplicação de instituições análogas entre si, com o consequente risco de uma nociva fragmentação em grupos demasiadamente pequenos. Noutros casos, trata-se de experiências originais, que estão à procura da sua própria identidade na Igreja e esperam ser reconhecidas oficialmente pela Sé Apostólica, a única a quem compete o juízo definitivo.
Estas novas formas de vida consagrada, que se vêm juntar às antigas, testemunham a constante atração que a doação total ao Senhor, o ideal da comunidade apostólica, os carismas de fundação continuam a exercer mesmo sobre a geração atual, e são sinal também da complementaridade dos dons do Espírito Santo.
Mas o Espírito não Se contradiz na inovação. Prova-o o fato de que as novas formas de vida consagrada não substituíram as antigas. Numa variedade tão grande de formas, pôde-se conservar a unidade de fundo graças ao chamamento sempre idêntico a seguir, na busca da perfeita caridade, Jesus virgem, pobre e obediente. Este chamamento, tal como se encontra em todas as formas já existentes, assim é requerido naquelas que se propõem como novas.
Fonte: Parte da Exortação Apostólica Pós-Sinodal VITA CONSECRATA  do Santo Padre São João Paulo II. CAPÍTULO I, (5-12)