Mas ainda que a caridade seja dom divino, para possuí-la, todavia, requer-se a disposição de nossa parte. Por isso deve-se saber que duas coisas são necessárias para adquirir a caridade, e duas para aumentar a caridade já adquirida.

Primeira disposição: a escuta da palavra de Deus.

Para adquirir, pois, a caridade, a primeira coisa é a escuta diligente da palavra de Deus, o que é suficientemente manifesto pelo que ocorre entre nós. Ouvindo, de fato, coisas boas de alguém, somos acesos em seu amor. Assim também, ouvindo as palavras de Deus, somos acesos em seu amor: “A tua palavra é um fogo ardente, e o teu servo a amou” (Sl 118,140). E também: “A palavra de Deus o inflamou” (Sl 104, 19). Por esta causa aqueles dois discípulos, ardendo do amor divino, diziam: “Porventura não ardia em nós o nosso coração, enquanto nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?” (Lc 24, 32). De onde que também em Atos 10,44 se lê que enquanto Pedro pregava, o Espírito Santo caiu nos ouvintes da palavra divina. E o mesmo frequentemente acontece nas pregações, isto é, que os que se aproximam com o coração duro, por causa da palavra da pregação, são acesos ao amor divino.

Segunda disposição: a meditação.

Para adquirir a caridade, a segunda coisa é a contínua consideração dos bens recebidos: “Aqueceu-se o meu coração dentro de mim” (Sl 38, 4). Se, portanto, queres conseguir o amor divino, meditarás os bens recebidos de Deus. Demasiadamente duro seria, na verdade, quem considerando os benefícios divinos que alcançou, os perigos dos quais escapou, e a bem aventurança que lhe é prometida por Deus, que não se acendesse ao amor divino. De onde que diz Santo Agostinho: “Dura é a alma do homem que, posto que não queira retribuir o amor, não queira pelo menos agradecer”. E, de modo geral, assim como os pensamentos maus destroem a caridade, assim os bons a adquirem, a alimentam e a conservam, de onde que nos é ordenado: “Retirai os vossos maus pensamentos dos meus olhos” (Is 1,16). E também: “Os pensamentos perversos separam de Deus” (Sb 1, 3).

Terceira disposição: afastar o coração das coisas da terra.

Há também duas coisas que aumentam a caridade possuída, e a primeira é afastar o coração do que é terreno. O coração, de fato, não pode ser trazido perfeitamente a coisas diversas, de onde que ninguém é capaz de amar a Deus e ao mundo. E por isso, quanto mais nos afastarmos do amor do que é terreno, tanto mais nos firmaremos no amor divino. De onde que Santo Agostinho diz no Livro 83 das Questões: “A esperança de conseguir ou reter o que é temporal é veneno da caridade. O seu alimento é a diminuição da cobiça; sua perfeição, a nenhuma cobiça, porque a raiz de todos os males é a cobiça”. Quem quer que, portanto, queira alimentar a caridade, insista em diminuir a cobiça. A cobiça é o amor de conseguir ou obter o que é temporal, e o início de sua diminuição é o temor de Deus, o qual não pode somente ser temido, sem amor. É por esta causa que se ordenaram as religiões, nas quais e pelas quais a alma é trazida do que é mundano e corruptível ao que é divino, conforme se encontra escrito no Segundo livro de Macabeus, onde se lê :“Refulgiu o Sol, que antes estava entre nuvens” (2Mac 1, 22). O Sol, isto é, o intelecto humano, está entre nuvens quando entregue às coisas terrenas. Refulgirá, porém, quando for afastado e removido do amor do que é terreno. Resplandecerá, então, e nele crescerá o amor divino.

Quarta disposição: a firme paciência na adversidade.

A segunda coisa que aumenta a caridade é a firme paciência na adversidade. É manifesto, de fato, que quando sustentamos dificuldades por aquele a quem amamos, o próprio amor não é destruído; antes, ao contrário, ele cresce: “As muitas águas”, isto é, as muitas tribulações, “não puderam extinguir a caridade” (Cant 8, 7). É assim que os homens santos que sustentam adversidades por Deus mais se firmam em seu amor, assim como o artífice mais amará aquela sua obra na qual mais trabalhou. Daí também vem que os fiéis quanto maiores aflições por Deus sustentam, tanto mais se elevam no seu amor: “Multiplicaram-se as águas”, isto é, as tribulações, “e elevaram a arca ao alto” (Gen 7,17) isto é, a Igreja, ou a alma do homem justo.

Fonte: O MANDAMENTO DA CARIDADE – Santo Tomás de Aquino (Conferências sobre os dez mandamentos, proêmio.)