Quem, no mundo cristão, não conhece a incomparável e doce prece “Lembrai- vos”, a ele atribuída? Foi um dos primeiros a chamar de “Nossa Senhora” a Mãe de Deus. Conta a tradição que, escutando certa feita seus irmãos cantarem a Salve Regina, irrompeu de seu coração cheio de enlevo a tríplice exclamação que hoje coroa esta oração: “Ó clemente, ó piedosa, ó doce sempre Virgem Maria!” Foi também um dos primeiros apóstolos da mediação universal de Maria Santíssima, deixando esta doutrina claramente consignada em numerosos sermões: “Porque éramos indignos de receber qualquer coisa, foi-nos dada Maria para, por meio d’Ela, obtermos tudo quanto necessitamos. Quis Deus que nós nada recebamos sem haver passado antes pelas mãos de Maria.(…) Como mais íntimo de nossa alma, com todos os afetos de nosso coração e todos os sentimentos e desejos de nossa vontade, veneremos a Maria, porque esta é a vontade d’Aquele Senhor que quis que tudo recebamos por Maria.”

Estamos falando de São Bernardo de Claraval, doutor da Igreja, que nasceu na última década do século XI, no ano 1090, em Dijon, França. Foi educado em uma família nobre e cristã. Chama a atenção na vida deste grande santo o acontecimento da morte de sua mãe, quando seus irmãos quiseram seguir a carreira militar enquanto ele preferiu a vida religiosa, ouvindo o chamado de Deus. Na ocasião, todos os familiares foram contra, principalmente seu pai. Porém, com uma determinação poucas vezes vista, além de convencê-los, trouxe consigo: o pai, os irmãos, primos e vários amigos. Ao todo, trinta pessoas seguiram seus passos, sua confiança na fé em Cristo, e ingressaram no Mosteiro da Ordem de Cister, recém-fundada.

A contribuição de Bernardo dentro da ordem foi de tão grande magnitude que ele passou a ser considerado o seu segundo fundador.
Bernardo viveu uma época muito conturbada na Igreja. Muitas vezes teve de deixar a reclusão contemplativa do mosteiro para envolver-se em questões que agitavam a sociedade. Foi pregador, místico, escritor, fundador de mosteiros, abade, conselheiro de papas, reis, bispos e também polemista político e tenaz pacificador. Nada conseguia abater ou afetar sua fé, imprimindo sua marca na história da espiritualidade católica romana.

Rezemos com São Bernardo de Claraval a Oração “Minha augusta Soberana”:

Ó doce Virgem Maria, minha augusta Soberana!
Minha amável Senhora!
Minha boníssima e amorosíssima Mãe!
Doce Virgem Maria, coloquei em Vós toda a minha esperança e não serei em nada confundido.
Doce Virgem Maria, creio tão firmemente que do alto do Céu Vós velais dia e noite por mim e por todos os que esperam em Vós, e estou tão intimamente convencido de que jamais faltará coisa alguma quando se espera tudo de Vós, que resolvi viver para o futuro sem nenhuma apreensão e descarregar inteiramente em Vós todas as minhas inquietações.
Doce Virgem Maria, Vós me estabelecestes na mais inabalável confiança. Mil vezes Vos agradeço por tão precioso favor!
Doravante habitarei em paz em vosso coração tão puro; não pensarei senão em Vos amar e Vos obedecer, enquanto Vós mesma, ó Mãe bondosa, gerireis os meus interesses mais queridos.
Doce Virgem Maria! Como, entre os filhos dos homens, uns esperam a felicidade da sua riqueza, outros a procuram nos talentos!
Outros se apóiam sobre a inocência de sua vida, ou sobre o rigor de sua penitência, ou sobre o fervor de suas preces, ou no grande número de suas boas obras.
Quanto a mim, minha Mãe, esperarei em Vós somente, depois de Deus;
e todo fundamento de minha esperança será sempre a minha confiança em vossas maternais bondades.
Doce Virgem Maria, os maus poderão roubar-me a reputação e o pouco de bem que possuo;
as doenças poderão tirar-me as forças e a faculdade exterior de Vos servir;
poderei eu mesmo — ai de mim, minha terna Mãe! — perder vossas boas graças pelo pecado;
mas a minha amorosa confiança em vossa maternal bondade, jamais — oh, não! — jamais a perderei!
Conservarei esta inabalável confiança até meu último suspiro.
Todos os esforços do inferno não a arrebatarão de mim.
Morrerei repetindo mil vezes o vosso nome bendito, fazendo repousar em vosso Coração toda a minha esperança.
E por que estou tão firmemente seguro de esperar sempre em Vós?
Não é senão porque Vós mesma me ensinastes, dulcíssima Virgem, que sois toda misericórdia e somente misericórdia.
Estou, pois, seguro, ó boníssima e amorosíssima Mãe!
Estou certo de que Vos invocarei sempre, porque Vós sempre me consolareis;
de que Vos agradecerei sempre, porque sempre me confortareis;
de que Vos servirei sempre, porque sempre me ajudareis;
de que Vos amarei sempre, porque sempre me amareis;
de que obterei sempre tudo de Vós, porque o vosso liberal amor sempre ultrapassará a minha esperança.
Sim, é de Vós somente, ó doce Virgem Maria, que, apesar de minhas faltas, espero e aguardo o único bem que desejo: a união a Jesus no tempo e na eternidade.
É de Vós somente, porque sois Vós aquela a quem meu Divino Salvador escolheu para me dispensar todos os Seus favores, para me conduzir a Ele com segurança.
Sim, sois Vós, minha Mãe, que, após me terdes ensinado a compartilhar as humilhações e sofrimentos de vosso Divino Filho, me introduzireis em Sua glória e em Suas delícias, para O louvar e bendizer, junto a Vós e convosco, pelos séculos dos séculos.
Assim seja.