Cristo, Palavra de Deus encarnada, crucificada e ressuscitada, é Senhor de todas as coisas; é o Vencedor, o Pantocrator, e assim todas as coisas ficam recapituladas n’Ele para sempre (cf. Ef 1, 10). Por isso, Cristo é “a luz do mundo”, aquela luz que “resplandece nas trevas” mas as trevas não a acolheram (cf. Jo 1, 5). Aqui se compreende plenamente o significado do Salmo 119 quando a designa “farol para os meus passos, e luz para os meus caminhos”, esta luz decisiva na nossa estrada é precisamente a Palavra que ressuscita. Desde o início, os cristãos tiveram consciência de que, em Cristo, a Palavra de Deus está presente como Pessoa.

A Palavra divina desvenda também o pecado que habita no coração do homem. Muitas vezes encontramos, tanto no Antigo como no Novo Testamento, a descrição do pecado como não escuta da Palavra, como ruptura da Aliança e, consequentemente, como fechar-se a Deus que chama à comunhão com Ele. Com efeito, a Sagrada Escritura mostra-nos como o pecado do homem é essencialmente desobediência e “não escuta”. Precisamente a obediência radical de Jesus até à morte de Cruz (cf. Fl 2, 8) desmascara totalmente este pecado. Na sua obediência, realiza-se a Nova Aliança entre Deus e o homem, nos é concedida a possibilidade da reconciliação. De fato, Jesus foi mandado pelo Pai como vítima de expiação pelos nossos pecados e pelos do mundo inteiro (cf. 1 Jo 2, 2; 4, 10; Hb 7, 27). Assim, nos oferece misericordiosamente a possibilidade da redenção e o início de uma vida nova em Cristo. Por isso, é importante que os fieis sejam educados a reconhecer a raiz do pecado na não escuta da Palavra do Senhor e a acolher em Jesus, Verbo de Deus, o perdão que nos abre à salvação.

O Verbo eterno, é Palavra de Deus feito carne, único salvador e mediador entre Deus e o homem. O Prólogo de São João afirma, referindo-se ao Logos (Palavra) divina, que “tudo começou a existir por meio d’Ele, e, sem Ele, nada foi criado” (Jo 1, 3); de igual modo na Carta aos Colossenses afirma-se, referente a Cristo “primogênito de toda a criação” (1, 15), que “tudo foi criado por Ele e para Ele” (1, 16).

Palavra de Deus é ainda, critério de discernimento: ela é “viva, eficaz e mais penetrante que uma espada de dois gumes; penetra até dividir a alma e o corpo, as junturas e as medulas e discerne os pensamentos e intenções do coração” (Hb 4, 12).  Por isso, na sua essência, a Igreja é missionária. Não podemos guardar para nós as palavras de vida eterna, que recebemos no encontro com Jesus Cristo: são para todos, para cada homem. Cada pessoa do nosso tempo – quer o saiba quer não – tem necessidade deste anúncio. Oxalá o Senhor suscite entre os homens, como nos tempos do profeta Amós, nova fome e nova sede das palavras do Senhor (cf. Am 8, 11). A nós cabe a responsabilidade de transmitir aquilo que por nossa vez tínhamos, por graça, recebido.