Tornar algo sagrado, no caso da vida consagrada, significa que tudo o que somos, fazemos e possuímos pertence a Deus em doação livre e alegre. Significa que todo o nosso ser, mais cedo ou mais tarde, deve ser dirigido para a glória de Deus, como uma resposta concreta de amor a Deus. E esse doar-se a Deus é algo radical. Não deveriam existir exceções nesse sentido. Todo o nosso passado, presente e futuro pertencem a Deus. Tudo deve ser dirigido a Deus em culto e adoração. Esse conceito toca profundamente em todas as nossas motivações e em todos os aspectos de nossa vida consagrada. Nossa vida fraterna, apostolados e serviços, nossa própria vida interior pertencem a Deus em culto e adoração. Quando há a vivência livre e alegre dessa consagração total a Deus, existe no consagrado uma profunda paz e uma autorrealização incrível. Quando o consagrado vive somente para si mesmo, buscando sua própria glória, há somente profunda frustração e tristeza. Esse egoísmo é um dos grandes perigos do individualismo exagerado da pós-modernidade, que já entrou em nossos conventos em formas variadas. Por isso, o caminho da libertação é um confronto pacífico, mas honesto, com nossas motivações mais profundas em todas as ramificações de nossa vida consagrada. Se tentamos dirigir tudo para Deus, em culto e adoração, há paz no coração. Se tudo for dirigido apenas para a nossa própria auto-glória, há somente frustração e, mais cedo ou mais tarde, uma crise de identidade. Confronto honesto com nossas motivações é o caminho de conversão e libertação.

Assumimos esse “tornar algo sagrado” no início de cada dia, renovando nosso desejo de amar a Deus de todo o nosso coração. Isso é santificar nosso dia. Mas essa motivação precisa de renovação durante o dia, para que nos lembremos de entrar nessa atitude evangélica de culto e adoração em tudo que somos e fazemos. Precisamos de momentos curtos de intimidade com Deus, durante o dia, para purificar nossas motivações, para poder fazer “sagrado” tudo durante nosso dia.

Dedicar algo somente para Deus

A própria Igreja consagra certas coisas e objetos. A Igreja especialmente consagra itens que são usados em nossas liturgias. Quando um bispo consagra um altar, derramando sobre o altar os santos óleos; com todas aquelas velas acesas nos quatro cantos do altar; não há nenhuma dúvida que esse objeto agora já não pertence ao mundo “secular”, mas é agora algo “sagrado”. Agora pertence a Deus. Está consagrado. Já não é uma simples mesa, mas é um altar que somente pode ser usado em funções litúrgicas. O mesmo acontece com um cálice. Depois de sua consagração, esse cálice está dedicado somente a Deus e a seu culto. Ele sai de sua essência mundana para entrar no mundo do sagrado. Já não é um copo, mas é um cálice sagrado que pertence a Deus.

Mas a Igreja também consagra pessoas. Pela profissão religiosa, a pessoa deixa, por opção, o mundo secular e entra no mundo sagrado. A pessoa consagrada agora pertence totalmente a Deus e é dedicada somente para o culto e a adoração de Deus. A pessoa consagrada vive e respira somente para Deus, num ato contínuo de liturgia. Agora seu ser é um ser consagrado, que quer viver somente em e por Deus. Tudo é dirigido a Deus e, culto e adoração.

Mais uma vez, para viver isso, o consagrado precisa traduzir em vida seu ser consagrado totalmente dedicado a Deus. Precisamos de atos concretos de consagração. Atos proféticos e visíveis de culto e adoração, que mostrem que pertencemos totalmente a Deus. Manifestamos esse aspecto de consagração através de uma vida profunda de intimidade com Deus, por meio da oração de contemplação. Nossa intimidade não pode ser superficial. Também manifestamos esse aspecto por uma vida de liturgia comunitária, especialmente na celebração da Eucaristia, que é uma renovação de nossa consagração a Deus. Em poucas palavras, o povo de Deus tem de ver que somos mesmo dedicados a Deus. Nossa vida precisa ser profética. O povo sabe que pertencemos a Deus, mas ele tem também o direito de ver que vivemos isso em profundidade. Somos consagrados a Deus, e não podemos enganar o povo vivendo uma vida totalmente mundana sem intimidade com Deus.

Fonte: KEARNS, Lourenço. A teologia da vida consagrada. Aparecida,SP: Editora Santuário, 1999-(Coleção Claustro;4)