CARTA APOSTÓLICA INDE A PRIMIS (“Desde o Princípio”)
DE SUA SANTIDADE JOÃO XXIII
Ao aproximar-se a festa e o mês dedicados ao culto do Sangue de Cristo, preço do nosso resgate, penhor de salvação e de vida eterna, façam-na os fiéis objeto de meditações mais devotas e de comunhões sacramentais mais frequentes, reflitam no valor superabundante, infinito desse Sangue verdadeiramente preciosíssimo, do qual uma só gota pode salvar o mundo todo de toda culpa”. Porquanto, se infinito é o valor do Sangue do Homem-Deus, e se infinita foi a caridade que o impeliu a derramá-lo desde o oitavo dia do seu nascimento, e depois, com superabundância, na agonia do horto (cf. Lc 22,43), na flagelação e na coroação de espinhos, na subida ao Calvário e na crucifixão, enfim, da ampla ferida do seu lado, é o mesmo Sangue divino que corre em todos os sacramentos da Igreja, é sumamente justo que a ele sejam tributadas homenagens de adoração e de amorosa gratidão por parte de todos os que foram regenerados nas suas ondas salutares.
No sacrifício da Missa, em união com o sacerdote celebrante, poderão os fiéis com plena verdade, dizer mentalmente: “Tomarei o cálice da salvação e invocarei o nome do Senhor… O sangue de Cristo me guarde para a vida eterna. Amém”. Desse modo os fiéis que dele se aproximam dignamente receberão, de forma mais abundante, os frutos de redenção, de ressurreição e de vida eterna que o este Sangue derramado por Cristo, mereceu para o mundo inteiro. Nutridos do corpo e do sangue de Cristo, tornados participantes do seu poder divino, que fez surgir legiões de mártires, estes, irão ao encontro das lutas cotidianas, dos sacrifícios, até mesmo do martírio, se preciso, em defesa da virtude e do reino de Deus, sentindo em si mesmos aquele ardor de caridade que fazia São João Crisóstomo exclamar: “Saímos daquela mesa quais leões lançando chamas!”
Esse Sangue, se dignamente recebido, afasta os demônios, chama para junto de nós os anjos e o próprio Senhor dos anjos… Esse Sangue derramado purifica o mundo todo… Este é o preço, em Cristo Rei do Universo, redime a Igreja. Tal pensamento deve refrear as nossas paixões. Até quando, com efeito, ficaremos apegados ao mundo presente? Até quando ficaremos inertes? Até quando descuidaremos em pensar na nossa salvação?
Oh! Se os cristãos refletissem mais no paternal aviso de Pedro, primeiro papa: “Portai-vos com temor durante o tempo do vosso exílio. Pois sabeis que não foi com coisas perecíveis, isto é, com prata ou ouro que fostes resgatados…, mas pelo sangue precioso de Cristo, como de um cordeiro sem defeito e sem mácula” (1 Pd 1,1719); Se os discípulos de Cristo, ouvissem à exortação do apóstolo Paulo: “Alguém pagou alto preço pelo vosso resgate; glorificai, portanto, a Deus em vosso corpo” (l Cor 6,20). Quanto mais dignos, mais edificantes seriam os seus costumes, quanto mais salutar para a humanidade inteira seria a presença, no mundo, da Igreja de Cristo! E, se todos os homens respondessem aos convites da graça de Deus, que os quer todos salvos remidos pelo Sangue de seu Unigênito, e chama todos a serem membros de um só corpo místico, do qual Cristo é a Cabeça, então quanto mais fraternas se tornariam as relações entre os indivíduos, os povos, as nações, e quanto mais pacífica, quanto mais digna de Deus e da natureza humana, criada a imagem e semelhança do Altíssimo.
Dado em Roma, junto a S. Pedro, no dia 30 de junho de 1960, vigília da Festa do Preciosíssimo Sangue de N. S. J. C., segundo ano do nosso Pontificado.


