No dia 1º de Janeiro a liturgia celebra a festa de Maria Santíssima Mãe de Deus. Nossos irmãos orientais de rito siríaco denominam esta festa de PARABÉNS À MARIA. Nós nos achegamos a ela com os sentimentos de quem se aproxima de uma mulher que há poucos dias gerou o seu primogênito.

Duas coisas, porém, distinguem nossa homenagem a Maria acima de qualquer homenagem humana. Aquele a quem ela deu a luz é o Filho de Deus. Ela é, portanto, verdadeira Mãe de Deus:Theotokos, como dizem os cristãos ortodoxos. A Igreja definiu esta verdade num de seus primeiros concílios ecumênicos: aquele que teve lugar em Éfeso no ano de 431. Santo Inácio de Antioquia, um dos mais ilustres mártires da antiguidade cristã, chama a Jesus “o filho de Deus e de Maria”. Isto coloca Maria em um patamar altíssimo: nada mais e nada menos do que junto ao Pai celeste. Mas a coloca, ao mesmo tempo, tão próxima de nós de modo a torná-la nossa mãe: a Mãe da Igreja. O Jesus que ela gerou nos assumiu como irmãos; uniu-nos a si tão profundamente de modo a formar um só corpo; fez-se nossa cabeça, mas também nosso irmão: “primogênito entre uma multidão de irmãos”, como o chama São Paulo (Rm 8,29).

No momento em que Jesus, em Maria, se torna Filho do homem, nós, filhos dos homens, nos tornamos filhos de Deus. Uma vez que Ele, de Filho se faz servo, nós, que éramos servos nos tornamos filhos: “Já não és mais escravo, mas filho”, nos recordou São Paulo. É a admirável permuta. Dessa permuta, Maria foi “o lugar” e a mediadora. Tornados filhos de Deus por meio do Espírito, nós adquirimos o direito de usar também a linguagem e a confiança dos filhos em relação a Deus, chamando-O como Jesus: “Abba! Pai nosso!” É uma espécie de relíquia viva do Cristo esta palavra: é sua mesma voz, chegada a nós sem passar por nenhuma tradução. “Abba!” – Assim rezou Jesus Cristo. E vamos a Ele não individualmente, ou até por grupos, mas como comunidade de pessoas salvas, como Igreja, da qual Maria é a Mãe, o modelo.

O Natal foi para ela algo que conservou no coração, que meditou: foi uma escola de fé. Por quantas vezes Maria talvez tenha voltado o pensamento àqueles fatos, “às coisas ditas pelos pastores”, para haurir deles luz e coragem durante aqueles trinta longos anos de Nazaré, anos de fadiga e silêncio. Porque – é importante sabê-lo – também Maria viveu de fé, cresceu na fé, foi provada na fé. E nesse crescimento na fé seu alimento foi, como é para nós, a Palavra de Deus. A Palavra de Deus nela se fez carne duas vezes: primeiro fisicamente, quando por nove meses ela O carregou no seio e O alimentou; depois se fez carne no resto de sua vida, no sentido de que cada um de seus gestos e cada momento tenha sido inspirado pela Palavra de Deus, que atuou com fidelidade. Maria é a Palavra de Deus feita silêncio. Ela fica silenciosa debaixo da Cruz e silenciosa no Cenáculo.

Fonte: Frei Raniero Cantalamessa.