“Deus, que te criou sem ti, não te salvará sem ti”. Essas palavras de Santo Agostinho soam como um maravilhoso cântico à liberdade: Deus, que te criou sem ti, não te salvará sem ti, porque todos nós, tu e eu, temos sempre a possibilidade – a triste desventura – de levantar-nos contra Deus, de rejeitá-lo – talvez com a nossa conduta – ou de exclamar: Não queremos que ele reine sobre nós.

Se, ao ouvirmos essa voz de Deus, que nos estimulam à santidade, responderemos livremente que sim? Volvamos o olhar para o nosso Jesus, quando falava às multidões pelas cidades e campos da Palestina. Não pretende impor-se. Se queres ser perfeito…, diz Ele ao jovem rico. Aquele rapaz rejeitou a insinuação, e conta-nos o Evangelho que abiit tristis, que se retirou entristecido. Por isso perdeu a alegria porque se negou a entregar a sua liberdade a Deus.

O homem não merece a Salvação, mas passa a merecê-la por meio da Graça Santificante: sozinho, o homem é incapaz de fazer qualquer ato que seja minimamente meritório; contudo, em Estado de Graça, as suas obras passam a merecer recompensas, porque são feitas unidas a Deus. O homem coopera com Deus na própria salvação. É a conhecida frase de Santo Agostinho: o teu Deus, que te criou sem ti, não te salvará sem ti.

Esta foi a forma que Deus “encontrou” para tornar o homem corresponsável pela própria Salvação: embora os atos dele, por serem humanos, sejam ínfimos diante da Infinitude Divina e, justamente por isso, não sejam dignos de recompensa alguma, Deus vem “morar” na alma do homem e, a partir daí, as obras do homem são “também” obras divinas, por serem feitas em união com Deus e, assim, tornam-se dignas de recompensa.

Deus não precisa de nós, pois é absoluto, livre de dependências ou condicionamentos. Podemos afirmar, portanto, que a criação da vida humana é graça total da parte de Deus, que nos quis e nos quer para Si e não temos mérito algum nisso.

Cristo nos salvou de uma vez por todas e isso é fato imutável e suficiente. Entretanto, a atualização deste grande mistério em nossas vidas depende de nossa adesão, da nossa fé. É este o significado da frase de Santo Agostinho: somente pela fé tomaremos posse da salvação de Cristo. É preciso assumir na vida a Redenção com um constante ato de própria vontade.