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Estes textos que publicaremos a partir de hoje fazem parte da célebre Novena de Natal composta por Santo Afonso Maria de Ligório, bispo e doutor da Igreja.

Nós sabemos que é costume de muitas pessoas se reunirem nesses dias que antecedem o Natal, a fim de manifestarem sua fé no mistério da Encarnação e implorarem a Deus a paz e a salvação para suas casas. As novenas de Natal são relativamente populares nos lares católicos do Brasil. O que as pessoas sentem falta, muitas vezes, é de meditações que lhes falem das verdades de fé, que lhes ensinem a doutrina católica de sempre e que ajudem seus familiares — quantos tão afastados de Deus! — a buscarem conversão e mudança de vida. Novenas até que existem muitas; as boas, no entanto, são difíceis de encontrar.
Daí a importância de propagarmos novenas como esta, composta por um santo. Além da segurança de recebermos um ensino sólido, que em nada destoe de nossa fé, nossas orações são conduzidas por pessoas que verdadeiramente amaram a Deus, ao ponto de serem escolhidas pela Igreja como modelo para todos os fiéis.

Nós temos certeza de que o seu Natal — faça você esta novena sozinho ou em família — será muito mais proveitoso com estas meditações!
Os textos abaixo são transcrições mais ou menos adaptadas do livro “Encarnação, Nascimento e Infância de Jesus Cristo”, da editora Cultor de Livros. As referências da meditação encontram-se na versão original da novena, disponível em língua italiana. Para ter acesso a uma e outra, basta clicar nos links abaixo.

Meditação para o 1.º dia da Novena de Natal

“Eu te estabeleci para luz das gentes, a fim de seres a salvação
que eu envio até a última extremidade da terra.” (Is 49, 6)

Considera o Pai celeste dizendo estas palavras a Jesus Menino no momento de sua conceição: “Meu Filho, eu te estabeleci para luz das gentes e a vida das nações, a fim de que lhes procureis a salvação, que desejo tanto como se fosse a minha própria”. É pois necessário que vos dediqueis inteiramente ao bem do gênero humano: “Dado sem reserva ao homem, deveis dedicar-vos inteiramente em benefício dele” [1].

É necessário que sofrais uma pobreza extrema desde o vosso nascimento, a fim de que o homem se torne rico (cf. 2Cor 8, 9). É necessário que sejais vendido como um escravo para pagardes a liberdade do homem, e que, como escravo, sejais flagelado e crucificado a fim de satisfazer à minha justiça pelas penas devidas aos homens. É necessário que deis vosso sangue e vossa vida para livrar o homem da morte eterna. Numa palavra, sabei que não sois mais vosso, mas do homem, segundo a palavra de Isaías: “Nasceu-nos um Menino, foi-nos dado um filho” (Is 9, 6).

“Desde o primeiro instante de sua encarnação, o Menino Jesus se dá inteiramente ao homem e abraça com alegria todas as dores e humilhações que deve sofrer no mundo por amor de nós.”

Assim, meu caro Filho, o homem se sentirá constrangido a amar-me e a dar-se a mim, ao ver que vos dou todo a ele, vós meu único Filho, e que não me resta mais nada a dar-lhe. Eis até onde chegou o amor de Deus aos homens! Ó amor infinito, digno somente de um Deus infinito! Jesus mesmo disse: “Deus amou de tal maneira o mundo que deu por ele seu unigênito Filho” (Jo 3, 16).

A essa proposta, Jesus Menino não se entristece, antes se alegra, aceita-a com amor e exulta: dá saltos como gigante para percorrer o seu caminho (cf. Sl 18, 6). Desde o primeiro instante de sua encarnação, Ele se dá todo ao homem e abraça com toda alegria todas as dores e humilhações que deve sofrer no mundo por amor aos homens. Essas foram, diz S. Bernardo, as montanhas e as colinas escarpadas que Jesus Cristo teve de escalar para salvar os homens [2]: “Ei-lo, aí vem saltando sobres os montes, atravessando as colinas” (Ct 2, 8).

Notemos bem: enviando-nos seu Filho como Redentor e Mediador de Paz entre Ele e os homens, Deus Pai obrigou-se de certo modo a perdoar-nos e a amar-nos; entre o Pai e o Filho interveio um pacto em virtude do qual o Pai devia receber-nos em sua graça, contanto que o Filho satisfaça por nós à divina justiça. De seu lado, o Verbo, digo, também se obrigou a amar-nos, não por causa do nosso mérito, mas para cumprir a misericordiosa vontade de seu Pai.

Afetos e Súplicas

Meu caro Jesus, se é verdade, como a lei o declara, que se adquire o domínio pela doação, vós me pertenceis porque o vosso Pai vos deu a mim: é por mim que nascestes, a mim fostes dado: “Nasceu-nos um Menino, foi-nos dado um Filho”. Posso pois dizer: “Meu Jesus e meu tudo”. Já que sois meu, todos os bens me pertencem.

O vosso apóstolo me assegura: “Como não nos dará também com ele todas as coisas?” (Rm 8, 32). Por isso, meu é o vosso sangue, meus os vossos méritos, minha a vossa graça, meu o vosso paraíso. E se sois meu, quem poderá jamais arrancar-vos de mim?
“Ninguém poderá tirar-me o meu Deus”, assim dizia com júbilo S. Antão Abade [3]; assim também quero dizer no futuro. É verdade que vos posso perder ainda e afastar-me de vós pelo pecado; mas, ó meu Jesus, se no passado vos abandonei e perdi, arrependo-me agora de toda a minha alma, e estou resolvido a perder tudo, a própria vida, antes que tornar a perder-vos, ó Bem infinito e único amor de minha alma. Agradeço-vos, Pai eterno, por me terdes dado vosso Filho; e já que me destes a Ele todo, eu, miserável, dou-me todo a vós.

Pelo amor desse Filho adorável, aceitai-me e prendei-me com cadeias de amor a meu Redentor, mas prendei-me tão estreitamente que possa dizer com o apóstolo: “Quem me separará do amor de Cristo?” (Rm 8, 35). Quem me poderá ainda separar de meu Jesus? E vós, meu Salvador, se sois todo meu, sabei que sou todo vosso. Disponde de mim, e de tudo o que me pertence como vos aprouver. E como poderia eu recusar alguma coisa a um Deus que não me recusou o seu sangue e a sua vida?

Maria, minha Mãe, guardai-me sob vossa proteção. Já não quero ser meu, quero ser todo do meu Senhor. A vós compete tornar-me fiel, confio em vós.

Referências

1. “Totus siquidem mihi datus, et totus in meos usus expensus est.” — São Bernardo, In Circumcisione Domini, Sermo 3, n. 4. ML 183-138.

2. Cf. São Bernardo, In Cantica, Sermones 53 et 54, per totum: ML 183-1033 ad 1044.

3. “Post orationem, clara voce dicebat (daemonibus): Ecce hic sum ego Antonius, non fugio vestra certamina, etiamsi maiora faciatis, nullus me separabit a caritate Christi.” — Santo Atanásio, Vita B. Antonii Abbatis, cap. 8. ML 73-131. – Cf. cap. 20, col. 144.

Notas

Extraído e adaptado do livro “Encarnação, Nascimento e Infância de Jesus Cristo”, São Paulo: Cultor de Livros, 2016, pp. 223-226. A versão original italiana desta novena pode ser livremente consultada aqui.